Sexta-feira, Julho 03, 2009

Venham!

Quinta-feira, dia 9 de julho, 21 h no Teatro Frei Caneca, no Shopping Frei Caneca.


Segunda-feira, Junho 29, 2009

O Rosto

"Nós somos os homens ocos/ os homens empalhados/ uns nos outros amparados/ o elmo cheio de nada. Ai de nós!". “Os olhos não estão aqui/ aqui os olhos não brilham/ neste vale de estrelas tíbias/ neste vale desvalido/ esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos”. "... fôrma sem forma, sombra sem cor/ força paralisada, gesto sem vigor”. "Assim expira o mundo, assim expira o mundo, assim expira o mundo, não com uma explosão, mas com um suspiro”. T.S. Eliot, "Os Homens Ocos", traduzido por Ivan Junqueira.

“Pleased to meet you/ hope you guess my name/ but whats puzzling you/ is the nature of my game”.
Sympathy for the Devil, Rolling Stones.

“I`m bad”. M. J.


Enterrados em mim os ossos do homem elefante, os anéis de Elizabeth Taylor, os pêlos pubianos de Brook Shields, os genes cheios de bacon de Lisa-Marie Presley. Meu rosto sem face, uma cara que não aparece, não some, não se identifica com nada, sou o planeta devastado. Um extraterrestre terreno, mundano, demoníaco, vulgarmente sofisticado. Sou a fisionomia de todas as cirurgias plásticas: aberrante, irreconhecível, apagado, para sempre na memória do mundo em fade out eterno. Meu pai detestava meu nariz, meu jeito, minha vontade de ser uma criança normal. Eu apanhei para ter um talento disciplinado, para ensaiar até a morte da minha infância. Agora o que querem de mim? Tudo que eu quero são os traços de Diana Ross, as linhas de seu semblante desenhadas em meu gesso, seu contorno é meu trono turvo, sua harmonia facial aplicada em minha argila putrefata: retrato de Dorian Grey. Quero roubar sua alma, não tenho a minha, não tenho forma, não tenho cor, não tenho idade, assim envelhecido como a música pop: repetida todas as fórmulas.

A tarde dos tempos modernos fenece em vitiligo: a noite não vem, já é. O escuro agora é branco e desbotado, o racismo é a pedofilia, as anomalias se misturam em decadência alisada de cabelos que se recusam a serem naturais. Tudo é falso, esta é a verdade. O brilho efêmero queima no coração dos desejos de sucesso e celebridade. Os gritos do thriller de terror das fãs que adoram o repugnante vulto de um gênio infeliz que dança seus passos lunáticos aleijado por dentro ecoam no amanhã que não chega. Terra do Nunca. Peter Pan é um fantasma, um monstro construído de partes de crianças abusadas por híbrida e deformada Sininho.

O que é a existência? Para que se está vivo? O que é a idolatria? Quem são esses orixás? Eu sou a dor dos rostos queimados pelos padrões estéticos do apocalipse, sou a dor dos corações sem a identidade do amor, eu sou os cérebros embotados, o câncer sentimental, sou o cinismo neurótico das torres mentais que construo colidindo com aviões de minha arrogância, eu sou a guerra de egos, sou o fanatismo, sou a frustração, a ignorância, a corrupção.

Prazer em conhecê-los, espero que vocês adivinhem meu nome.

Mas a esperança rebatiza os renascimentos.

Domingo, Junho 28, 2009

Bússula

Estando perdido e é bom estar. E cada pequena coisa que se encontra e renascendo, co-criando em criança ser. Quando se sabe menos e se sabe que vai se sabendo em subtração. O consenso entre o coração e a vida e o estado de perplexidade, o não-agir dentro de todas as ações: abster-se e o sentido se fazendo sem explicação. A febre de ir sentindo a mudança de valores, de opiniões, de posturas, de corpo, de casa. Torpor rosa. Em cada passo há um abismo, um precipício no princípio de si. Os amigos que brotam como frutas quando mais flexível se está, quando menos afirmações, menos certezas. Os dispostos se atraem. A vontade diminui: menos ansiosa, menos dispersa, menos vaga. O desejo vira realização amorosa em cada pequeno afazer. Porque compreensão, porque paciência. Admitir-se um outro. Matar o passado quando vem querendo ser sempre. Rever-se nas situações, observar as patadas, os velhos sapatos que furos encontram. Sentar e esperar andando. Recitar os versos do Livro que tudo poema. Quando mais insegurança se tem mais precisas as coisas acontecem. Justas causas, justas medidas. Há uma referência atrás de todas as névoas, todas as nuvens, todos os véus: se ver. Os desenhos dos desígnios destinam-se a que os livres arbítrios se meçam. No substrato de tudo há uma essência segredo que guia em sopro.

A Besta do Apocalipse

Obceno pássaro noturno, foto de J. Sacabo.

Letra e música:

No final dos tempos,
Haverá uma besta em cada lar.
Procuro o meu nome no livro da vida,
Será que a ferida vai secar?
Eu sou um cidadão, um consumidor,
Um cliente, um torcedor,
Sempre tenho razão pra querer matar.
Escuto o grito da chuva no ar,
O meu coração não consigo escutar.
A estrela da manhã abre porta no céu.
Vejo uma mulher vestida de sol,
Lavando vestes desse mundo cão.
Todos somos irmãos, de que puta somos filhos?
Vamos dar as mãos, vamos dar uns tiros!
Eu peço perdão por querer me matar.
Os cães têm espaço pra poder cantar,
O meu coração já não tem mais lugar.
Quando esse programa vai acabar?

E vi um novo céu e uma nova terra, porque já o primeiro céu e a primeira terra haviam passado, e já não havia mar. E eu, João, vi a Santa Cidade, a Nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, enviada como uma esposa enfeitada para o seu marido. E o que estava sentado sobre o trono disse: Escreve, porque essas palavras são verdadeiras e fiéis.”

Os vampiros vão te sugar,
Mas Deus está mais perto de você do que a sua jugular.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Corpos

O xis da questão.

Os anjos são esferas. Quantas pernas a lacraia tem? O homem teve a chance de escolher: escolheu mãos em vez de asas. Quis pegar em vez de ver tudo do alto. Os anjos se movem como os planetas. Eles falam pela luz. Variações de luzes que não podemos perceber. As flores conversam entre si pelo perfume. Em que altura ouvem os animais? O amor, quando cai do céu, traz de lá a linguagem que além se fala: a dos olhos. Por isso os enamorados se falam tão profundamente através de olhares. Mas, quando o amor percebe que não está mais no firmamento, caído, fala: entre os amantes surgem palavras. O que dizem os corpos? Do que são formas? Os anjos são translúcidos, mas se presenteiam com cores. O que um anjo quer dizer a outro ele pinta em si; através dessa imagem é que se sabe o que vai à alma do ser angelical. Assim dialogam os seres intelectuais. Os anjos têm outros sentidos. Ainda-não-luz é a pele humana.

Leonardo da Vinci dizia que a pintura é cosa mentale, por estar na cabeça de quem pinta ou na do espectador que a contempla e não no quadro.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

O Corpo

Foto de Renata Eugênia, Catedral da Sé.

O corpo estava embrulhado por suave cor de sangue. Gôzô Yoshimasu.

Meu corpo em seus braços sente o amor e o fim. Seu rosto é um coração que me penetra. Você é um espelho que me acerta. Tela de carne, sangue, pulmões, rins: minha pele, página branca, quer escrita, quer sua visita, amorosa presença. Projete-se, sou entrega: colunas, vitrais, domo, altar.

A imagem inconsciente do corpo é um ritmo.

Sábado, Junho 20, 2009

Jejum (oração para se ter menos)

Foto de Juan Rulfo, Caipira Morto.

Dizem os Caipiras Mortos: só o estômago vazio vê as coisas secretas.

O amor que eu te nego e te nego e um outro e um outro que eu te entrego e te entrego e o meu modo de agir e não agir em nada e nada, nada e se afoga e afaga e nada prova o que me faz sentir e sentir e sentar e esperar e esperar o que não chega, o que não é, o que vem e vem e não vem ao caso o fato, não é o fato, o fato de não ser amor e causar tanta dor, tanta dor, tanta dor faz o amor existir e assim eu te amo, eu te amo negando você e eu nego, cego, nego, vejo vesgo e rezo. Vem, me fala de amor, vem, eu não consigo ouvir mais nada, mais nada, mais nada falar, falir: ouvir. É de madrugada, é de madrugada, é sempre de madrugada que eu mais sinto, que eu sinto, que eu mais sinto que amanhã, que de manhã, que amanhã eu não vou existir, existir, insistir. Passo os dias sem comer, sem comer, sem comer ninguém, sem você os dias e as noites sem você comem, comem, comem os meus desejos, os meus desejos, o seus, os meus, eu, eu, eu estou virando meu ser, meu ser, ser meu, ser seu, ser. E se tão cego, de tão cego, de tão cego estou enxergando e não vejo, e não beijo, e não vejo, não vejo você me amando, eu vejo, eu vejo, eu beijo, eu vejo seu coração, seu, meu, seu coração, o meu e o seu, girando, girando, girando, gritando, girando, virando quem, quem, quem vira e desvira e revela. Deixa, deixa eu comer, não deixa, deixa, deixa eu comer seu amor, seu amor, meu amor, seu amor, deixa eu comer, eu não posso, eu não posso comer, eu não posso, eu passo, eu não posso comer mais nada.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Lindas Fidelidades

Inca – (... – Julho de 2009). Foto de Edu Campos, cuidador da própria, recortada por mim.

Sim, meus companheiros de solidão, cada dia mais sei que uma grave falha em meu caráter é não ter um cachorro, mas também não consigo imaginar a vida do próprio em um apartamento, seria vida de cão, mesmo porque, sinto os apartamentos como jaulas até para os humanos. A vida deve ser mais feliz em espaços onde a sua moradia não está empilhada em cima da de outrem e o verde sem limites é a cerca aberta, imagino. E quando penso em “ter” um cachorro, penso não na posse, mas no pertencer, no estar na mesma vibração, na mesma irmandade, na mesma nada solitária companhia.

Soube recentemente da morte da Góia, soube da doença grave da Bambina, soube ontem que a Inca fez a passagem e nunca mais soube nada sobre a Lua, minha querida e pulguenta Luluca. Cadelas com as quais tive o prazer de conviver não mais que minutos ou dias e nas quais vi em espelho o amor e a dedicação de seus respectivos cuidadores. Cachorros têm histórias e eu não estou apto para contá-las, mas, estou me especializando em ouvi-las e são os próprios que me contam.

Sinto, em ignorância pura, que cachorros não morrem, sinto que continuam em outro estado, pois, qual a função de um cachorro senão a de ser fiel, a de proteger, a de brincar? Para onde a alma de um cachorro finado seria designada senão para uma parte da alma daqueles que foram seus donos? E aqui vale filosofar sobre o que é ser “dono”, sempre em ignorância pura, como diriam os Caipiras Mortos, já que nesse caso ser dono não é possuir e sim ter também uma função perante a canina criatura: a de cuidar, a de ensinar, a de fazer carinho e expandir afeto.

Mas são eles que parecem ter muito mais a nos educar, quando apenas latem expressando com perfeição seus desejos básicos, ao contrário de nós e nossos intermináveis discursos vazios.

Há quem transfira suas frustrações para seus animais de estimação e dizem que os tais se parecem com seus donos. Sempre me feriu o coração ver um animal neurótico, impregnado da loucura daqueles com os quais convive. Por isto não suporto as arquiteturas fechadas que misturam neuroses. Um animal, racional ou não, precisa de espaço para se isolar, ou melhor, isolar os outros seres de suas idiossincrasias, de suas esquisitices, das coisas que só devem ser feitas em isolamento.

Cada dia mais eu penso em ser como um cachorro para alguém.